segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

"Se tens um coração de ferro, bom proveito.
O meu, fizeram-no de carne, e sangra todo dia."
José Saramago.

sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

SONETO DA HORA FINAL

Será assim, amiga: um certo dia
Estando nós a contemplar o poente
Sentiremos no rosto, de repente
O beijo leve de uma aragem fria.

Tu me olharás silenciosamente
E eu te olharei também, com nostalgia
E partiremos, tontos de poesia
Para a porta de treva aberta em frente.

Ao transpor as fronteiras do Segredo
Eu, calmo, te direi: — Não tenhas medo
E tu, tranquila, me dirás: — Sê forte.

E como dois antigos namorados
Noturnamente triste e enlaçados
Nós entraremos nos jardins da morte.
Montevidéu, julho de 1960

terça-feira, 24 de dezembro de 2013

Resíduo

De tudo ficou um pouco. Do meu medo. Do teu asco. Dos gritos gagos. Da rosa, ficou um pouco. Ficou um pouco de luz captada no chapéu. Nos olhos do rufião de ternura ficou um pouco, (muito pouco). Pouco ficou deste pó de que teu branco sapato se cobriu. Ficaram poucas roupas, poucos véus rotos, pouco, pouco, muito pouco. Mas de tudo fica um pouco. Da ponte bombardeada, de duas folhas de grama, do maço ― vazio ― de cigarros, ficou um pouco. Pois de tudo fica um pouco.
 Carlos Drummond de Andrade

segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

A noite é sóbria e sombria, enquanto alguns dormem, outros insones imploram na beira do abismo das estrelas, se suicidam por um caos inalcançável -
talvez exista céu, e você realmente esteja lá
-espero.
John

sábado, 21 de dezembro de 2013

E, enquanto não me descobres,
os mundos vão navegando
nos ares certos do tempo,
até não se sabe quando…
e um dia me acabarei.
Cecília Meireles.