segunda-feira, 26 de setembro de 2011

“O meu dia só existe porque você existe dentro dele. Porque se você não vem é como se o tempo fosse passado em branco, como se as coisas não chegassem a se cumprir porque você não soube delas. E se você vem, fica tudo maior, mais amplo, sei lá, mas é como se eu existisse de um jeito mais completo…”
- Caio Fernando Abreu.

quarta-feira, 14 de setembro de 2011



Eu gosto de carinho violento, de falar, de estar certa. De quem entende o que eu digo, de quem escuta o que eu penso. Da minha prole, dos meus discos, dos meus livros. Dos meus cachorros, dos Stones, do Rock Natural. Da minha solidãozinha, dos meus blues, do meu sofá vermelho. Da minha casa, do meu umbigo, de unhas cor de carmim. De homem que sabe ser homem, de noites em claro e dias em branco, de chuva e de sol. Eu guardo as minhas rejeições em vidrinhos rotulados com o nome deles. Eu sou mole demais por dentro pra deixar todo mundo ver. Eu deixo pra quem eu acho que pode comigo. Ninguém sabe…. Mas eu tenho coração de moça.

 Fernanda Young

domingo, 11 de setembro de 2011

Fantasma

Para onde vais, assim calado,
de olhos hirtos, quieto e deitado,
as mãos imóveis de cada lado?

Tua longa barca desliza

por não sei que onda, límpida e lisa,
sem leme, sem vela, sem brisa...

Passas por mim na órbita imensa

de uma secreta indiferença,
que qualquer pergunta dispensa.

Desapareces do lado oposto

e, então, com súbito desgosto,
vejo que teu rosto é o meu rosto,

e que vais levando contigo,

pelo silêncioso perigo
dessa tua navegação,

minha voz na tua garganta,

e tanta cinza, tanta, tanta,
de mim, sobre o teu coração!
                         Cecília Meireles

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Um jardineiro desconhecido se ocupará da simetria
desse pequeno mundo em que estás.

Suas mãos vivas caminharão acima das tuas, em descanso,
das tuas que calculavam primaveras e outonos,
fechadas em sementes e escondidos na flor!

Tua voz sem corpo estará comandando,
entre terra e água,
o aconchego das raízes tenras,
a ordenação das pétalas nascentes.

À margem desta pedra que te cerca,
o rosto das flores inclinará sua narrativa:
história dos grandes luares,
crescimento e morte dos campos,
giros e músicas de pássaros,
arabescos de libélulas roxas e verdes.
Conversareis longamente,
em vossa linguagem inviolável.
Os anjos de mármore ficarão para sempre ouvindo: 
que eles também falam em silêncio.

Mas a mim – se te chamar, se chorar – não me ouvirás
por mais perto que venha, não sou mais que uma sombra
caminhando em redor de uma fortaleza.

Queria deixar-te aqui as imagens do mundo que amaste:
o mar com seus peixes e suas barcas;
os pomares com cestos derramados de frutos;
os jardins de malva e trevo, com seus perfumes
brancos e vermelhos.

E aquela estrela maior, que a noite levava na mão direita.
E o sorriso de uma alegria que eu não tive,
mas te dava.
                                          Elegia, Cecília Meireles

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

Quem me dera ao menos uma vez
Que o mais simples fosse visto
Como o mais importante
Mas nos deram espelhos e vimos um mundo doente.

                                   Indios, Legião Urbana.

terça-feira, 23 de agosto de 2011

Faço as pazes lembrando
Passo as tardes tentando
Te telefonar
Cartazes te procurando
Aeronaves seguem pousando
Sem você desembarcar
Pra eu te dar a mão nessa hora
Levar as malas pro Fusca lá fora...
                                 Luz dos Olhos, Nando Reis

sábado, 20 de agosto de 2011

Tenho ciúmes deste cigarro que você fuma
Tão distraidamente.
                  Ciúmes, Ana Cristina Cesar.