sábado, 11 de outubro de 2014

outra cama

outra mulher

mais cortinas

outro banheiro

outra cozinha

outros olhos

outro cabelo

outros

pés e dedos.

todos à procura.

a busca eterna.

você fica na cama

ela se veste para o trabalho

e você se pergunta o que aconteceu

à última

e à outra antes dela…

é tudo tão confortável —

esse fazer amor

esse dormir juntos

a suave delicadeza…

após ela sair você se levanta e usa

o banheiro dela,

é tudo tão intimidante e estranho.

você retorna para a cama e

dorme mais uma hora.

quando você vai embora é com tristeza

mas você a verá novamente

quer funcione, quer não.

você dirige até a praia e fica sentado

em seu carro. é meio-dia.

— outra cama, outras orelhas, outros

brincos, outras bocas, outros chinelos, outros

vestidos

cores, portas, números de telefone.

você foi, certa vez, suficientemente forte para viver sozinho.

para um homem beirando os sessenta você deveria ser mais

sensato.

você dá a partida no carro e engata a primeira,

pensando, vou telefonar para janie logo que chegar,

não a vejo desde sexta-feira.

Charles Bukowski

quarta-feira, 8 de outubro de 2014

É preciso sofrer depois de ter sofrido, e amar, e mais amar, depois de ter amado.
Guimarães Rosa

segunda-feira, 6 de outubro de 2014

Luto

A gente nunca imagina quando vai acontecer, a gente passa a vida temendo, se preparando.
Mas por mais que a gente saiba que é inevitável, nunca estamos realmente preparados.
E hoje, o que era pra ser apenas mais um dia como os outros, você tristemente nos deixou.
Foram dez anos nos dando alegria, dez anos de companhia, dez incríveis anos em que tive o prazer de te ter como meu melhor amigo. Posso me lembrar da primeira vez em que te vi, uma bolinha de pelos minúscula, lembrar das brincadeiras, de tantas coisas que passamos juntos. Você cresceu comigo, e permaneceu comigo até seus últimos instantes, fiz de tudo, mas realmente chegou a sua hora, E enquanto eu estiver viva você nunca morrerá, estará no meu coração, nas palavras, nas lembranças. Eu te amo, esteja onde estiver meu Floquinho, só enquanto eu respirar, vou me lembrar de você...

sexta-feira, 3 de outubro de 2014

Domingo ela acordava mais cedo para ficar mais tempo sem fazer nada. O pior momento de sua vida era nesse dia ao fim de tarde: caía em meditação inquieta, o vazio do seco domingo. Suspirava. Tinha saudade de quando era pequena – farofa – e pensava que fora feliz. Na verdade por pior a infância é sempre encantada, que susto. Nunca se queixava de nada, sabia que as coisas são assim mesmo.
Clarice Lispector

quinta-feira, 2 de outubro de 2014

Se me ponho a cismar em outras eras
Em que rí e cantei, em que era querida,
Parece-me que foi outras esferas,
Parece-me que foi numa outra vida…

E a minha triste boca dolorida
Que dantes tinha o rir das primaveras,
Esbate as linhas graves e severas
E cai num abandono de esquecida!

E fico, pensativa, olhando o vago…
Toma a brandura plácida dum lago
O meu rosto de monja de marfim…

E as lágrimas que choro, branca e calma,
Ninguém as vê brotar dentro da alma!
Ninguém as vê cair dentro de mim!

Florbela Espanca

quarta-feira, 1 de outubro de 2014

De todas as maneiras que há de amar.
Ouça um bom conselho que eu lhe dou de graça:
eu semeio o vento na minha cidade,
vou pra rua e bebo a tempestade.
Chico Buarque