domingo, 9 de fevereiro de 2014

Não valia a pena confiar em nenhum outro ser humano. O quer que fosse preciso para estabelecer essa confiança, não estava presente na humanidade.
Charles Bukowski

sábado, 8 de fevereiro de 2014

Sentado ali, bebendo, considerei a opção do suicídio, mas me senti estranhamente apaixonado pelo meu corpo, pela minha vida. Apesar das cicatrizes que marcavam meu corpo e minha existência, ambos eram propriedades minhas.
Charles Bukowski

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

Súbito me encantou. A moça em contraluz. Arrisquei perguntar: quem és? Mas fraquejou a voz. Sem jeito eu lhe pegava as mãos, como quem desatasse um nó, soprei seu rosto sem pensar e o rosto se desfez em pó. Por encanto voltou, cantando a meia voz. Súbito perguntei: quem és? Mas oscilou a luz. Fugia devagar de mim e quando a segurei, gemeu. O seu vestido se partiu e o rosto já não era o seu. Há de haver algum lugar, um confuso casarão, onde os sonhos serão reais e a vida não. Por ali reinaria meu bem, com seus risos, seus ais, sua tez e uma cama onde à noite, sonhasse comigo, talvez. Um lugar deve existir. Uma espécie de bazar, onde os sonhos extraviados vão parar, entre escadas que fogem dos pés e relógios que rodam pra trás. Se eu pudesse encontrar meu amor, não voltava jamais.
Chico Buarque

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil. Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita, indesculpavelmente sujo. Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho. Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo, que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas. Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante, que tenho sofrido enxovalhos e calado, que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda; eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel. Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes. Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar. Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado para fora da possibilidade do soco; eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas, eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.
Fernando Pessoa

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

Uma pessoa emocionalmente superficial precisa de grandes eventos para ter prazer, uma pessoa profunda encontra prazer nas coisas ocultas, nos fenômenos aparentemente imperceptíveis: no movimento das nuvens, no bailar das borboletas, no abraço de um amigo, no beijo de quem ama, num olhar de cumplicidade, no sorriso solidário de um desconhecido. Felicidade não é obra do acaso, felicidade é um treinamento.
Augusto Cury

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

É preciso que a saudade desenhe tuas linhas perfeitas,
teu perfil exato e que, apenas, levemente, o vento
das horas ponha um frêmito em teus cabelos…
É preciso que a tua ausência trescale
sutilmente, no ar, a trevo machucado,
as folhas de alecrim desde há muito guardadas
não se sabe por quem nalgum móvel antigo…
Mas é preciso, também, que seja como abrir uma janela
e respirar-te, azul e luminosa, no ar.
É preciso a saudade para eu sentir
como sinto - em mim - a presença misteriosa da vida.
Mas quando surges és tão outra e múltipla e imprevista
que nunca te pareces com o teu retrato.
E eu tenho de fechar meus olhos para ver-te.
Mario Quintana

domingo, 2 de fevereiro de 2014

A vida precisa do vazio: a lagarta dorme num vazio chamado casulo até se transformar em borboleta. A música precisa de um vazio chamado silêncio para ser ouvida. Um poema precisa do vazio da folha de papel em branco para ser escrito. É no vazio da jarra que se colocam flores. E as pessoas, para serem belas e amadas, precisam ter um vazio dentro delas. A maioria acha o contrário; pensa que o bom é ser cheio. Essas são as pessoas que se acham cheias de verdades e sabedoria e falam sem parar. São umas chatas! Bonitas são as pessoas que falam pouco e sabem escutar. A essas pessoas é fácil amar. Elas estão cheias de vazio. E é no vazio da distância que vive a saudade…
Rubem Alves